EXPERIMENTANDO DA GRAÇA

23/05/10 á 29/05/10
Pr. Márcio Ribeiro
Texto: Mt. 9:17

Introdução: O chamado para o reino de Deus não é um apelo para uma nova religião ou uma nova experiência religiosa, mas uma convocação para a transformação [da vida] No mundo. A mensagem de Jesus e sua proposta de espiritualidade não estavam voltadas para uma reforma da religião judaica ou do sistema religioso de sua época. O vinho novo do evangelho da graça de Deus visava afetar o âmago das pessoas e de seus relacionamentos. Paulo Brabo descreve bem essa nova mentalidade, nova dinâmica de espiritualidade, e principalmente o novo tipo de gente em seu artigo Dez razões para não ser cristão (A Bacia das Almas, Editora Mundo Cristão). O título provocativo sugere que o Cristianismo se tornou uma religião como as outras, com o risco de contrariar e subverter o espírito de Jesus. Se não, observe exemplos da mensagem de Jesus em contraposição ao espírito da religião e dos sistemas e estruturas religiosas.

1- Pureza de motivos

Jesus diz que a justiça dos seus seguidores deveria exceder a justiça dos fariseus (Mt. 5.17-20), o que significava que não bastaria a prática do bem, mas exigia um coração bondoso: a questão não é o que você faz ou deixa de fazer, mas a qualidade de suas intenções e motivações, e na verdade, a natureza de seu caráter. Foi por isso que Jesus repreendeu os fariseus dizendo: (Mt. 13.25,26). Jesus condena o espírito legalista das religiões: o mero cumprimento das regras religiosas não quer dizer muita coisa aos olhos de Deus, que vê e julga os corações (1Cr. 28.9).

2- Desapego a coisas materiais

Jesus ensinou que “não podemos servir a dois senhores”, indicando que Deus exige lealdade exclusiva. Entre os ídolos que competem pelo nosso coração, o dinheiro é um dos mais poderosos (Mt 6.19-34). Diferentemente de muitos tele-evangelistas, Jesus, portanto, condena a ganância e o anseio de prosperidade financeira como fonte de motivação para a caminhada do discipulado e a busca de Deus.

3- Renúncia ao poder

Jesus ensina que a posição de autoridade deve ser exercida para o bem comum. A autoridade existe para o bem de todos, e não pode usar sua posição em benefício próprio. O modelo de liderança de Jesus é a liderança servidora: (Mc 10.42-45). A tendência hierarquizante e de abuso de poder das estruturas religiosas fere o espírito do evangelho de Jesus.

4- Amor aos inimigos

Jesus ensinou que deveríamos ser perfeitos como é perfeito seu Pai (Mt 5.48). A perfeição a que Jesus se refere é a do amor, que anula qualquer expectativa de vingança (Mt 5.38-42) e se estende não apenas aos amigos, como também e principalmente aos inimigos (Mt 5.43-47). A tendência sectária (“nós somos especiais aos olhos de Deus”) e maniqueísta (“nós justos contra eles pagãos e infiéis”), característica dos ambientes religiosos mais conservadores e fundamentalistas, é contrária ao evangelho de Jesus.

5- Ciclo virtuoso do perdão

Jesus ensina que devemos perdoar aos nossos devedores assim como nosso Pai celestial nos perdoa, e inclusive condiciona a experiência do perdão de Deus à disposição em perdoar os que nos ofenderam (Mt. 6.14,15). A experiência religiosa individualista e intimista, na qual o que importa é “estar bem com Deus” independentemente da qualidade dos relacionamentos interpessoais contraria a proposta e ordenamento de Jesus em seu evangelho.

6- Pecado interior

Jesus ensina que o pecado não é apenas aquilo que fazemos ou deixamos de fazer, mas também e principalmente aquilo que abrigamos em nosso ser interior e determina nossa consciência e caráter. Não basta não matar, é preciso estar livre do ódio, da mágoa e do ressentimento. Não matarás (Mt. 5.21-26). Não basta não fazer sexo ilícito, é preciso estar livre da cobiça e da lascívia (Mt. 5.27-32). A experiência religiosa que zela apenas pelo controle do comportamento moral está longe da proposta de espiritualidade de Jesus, que se baseia na liberdade do Espírito e na obediência em amor: [Gálatas 5.1-6]



7- Prática da generosidade

Jesus ensina a generosidade, o oposto da chamada Lei de Gérson: “levar vantagem em tudo”. O evangelho de Jesus propõe o serviço abnegado, solidário e compassivo em benefício de todo aquele que sofre independentemente do merecimento do sofredor. A parábola do Bom samaritano (Lucas 10.25-37) coloca a compaixão e amor ao próximo acima das leis cerimoniais religiosas. O bem do homem está acima da pureza cerimonial, pois “o sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado” (Mateus 12.27).

8- Restauração da dignidade humana (cada pessoa)

Jesus deu aos seus discípulos um novo mandamento: (João 13.34,35)

O mandamento de Jesus é novo em relação à Lei de Moisés, que mandava “amar ao próximo como a si mesmo”. No evangelho, a medida do amor ao próximo não é o amor próprio, mas o amor de Cristo.

O amor é o argumento que condena qualquer prática de abuso social, físico, psíquico, moral e, principalmente, espiritual. A religião como fator de opressão e controle do ser humano e da consciência humana é absolutamente condenada pelo evangelho de Jesus.

9- Rendição à graça de Deus

Jesus ensina que o favor de Deus é fruto de seu amor, e não do mérito humano. As mesmas qualidades de relação deveram desenvolver com as pessoas. A palavra chave do evangelho é graça, e não Lei. Por essa razão, Jesus adverte: (Mateus 21.31). Somente no evangelho da graça de Deus os desprezados socialmente têm primazia em relação aos virtuosos religiosos.

10- Dedicação da vida inteira

Jesus ensina que aquele que quiser ser seu seguidor deve abrir mão de viver para si mesmo. (Mateus 16.23,24)

(2 Coríntios 5.14,15)

Este imperativo de Jesus e seu evangelho implicam a dedicação da vida inteira a Deus e a condenação de qualquer experiência religiosa egocêntrica. A experiência de Deus não é mais um gomo na laranja das nossas vidas, mas algo que afeta a laranja inteira. Não se trata de incluir a vida religiosa ao lado da vida familiar, profissional ou cidadã. Trata-se de viver todas as dimensões da existência sob a influência e a autoridade de Deus.

Além disso, a experiência religiosa que faz de Deus um meio para atingir um determinado fim (conseguir um milagre, prosperar financeiramente, parar de sofrer) transforma Deus em ídolo. Deus é um fim em si mesmo: buscamos a Deus por Deus. Quem busca a Deus por causa de seus próprios interesses comete o pecado da idolatria.

Conclusão: Está claro, portanto, que o chamado para o reino de Deus não é um apelo para uma nova religião ou uma nova experiência religiosa, mas uma convocação para a transformação [da vida] do mundo. Toda a mensagem de Jesus está voltada para a transformação das pessoas e seus relacionamentos, quer seja com Deus ou mesmo entre si. Jesus não pretendia reformar ou fundar uma religião. Não estava interessado em sistemas e estruturas religiosas. Sua proposta implicava a possibilidade de uma completa transformação da mente e coração das pessoas, a instauração de uma nova dinâmica de espiritualidade e a existência de outro tipo de gente, capaz de viver em qualquer sistema ou estrutura religiosa, ou mesmo sem qualquer sistema ou estrutura.

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